Editorial: quando vereadores se curva ao prefeito, quem defende o povo?

Vereadores (exceto o presidente) que votaram a favor do compartilhamento de máquinas e estrutura de Filadélfia com outro município. — Foto: Montagem/JF
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A tramitação do Projeto de Lei nº 19/2026 na Câmara Municipal de Filadélfia deixou uma pergunta que hoje ecoa pelas ruas, fazendas, assentamentos e estradas vicinais do município:
os vereadores estão representando o povo ou apenas servindo ao prefeito?
O projeto autoriza o compartilhamento de máquinas, veículos, equipamentos e estrutura pública com outro município, em especial Babaçulândia-TO. Na teoria, parece cooperação administrativa. Mas a realidade de Filadélfia mostra algo muito diferente.
O município mal consegue atender sua própria demanda.
A população da zona rural convive diariamente com estradas destruídas, demora em recuperações, pontes precárias, dificuldade de acesso e abandono em várias regiões do município.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável:
como dividir máquinas com outros municípios se Filadélfia já não consegue atender adequadamente o próprio povo?
Mesmo assim, 5 vereadores votaram favoravelmente ao projeto. Muitos deles sem apresentar justificativas técnicas convincentes para a população, enquanto três de oposição votaram contra.
Um dos parlamentares chegou a declarar que “não está nem aí para o que falam”.
Uma frase que aumentou ainda mais a revolta popular, por demonstrar desprezo justamente pela população que o colocou no cargo.
Outros vereadores tentaram justificar a aprovação dizendo que irão “fiscalizar” o uso das máquinas.
Mas a população questiona:
fiscalizar como, se muitas vezes nem conseguem fiscalizar os próprios problemas dentro de Filadélfia?
Moradores lembram de casos recentes de máquinas quebradas e abandonadas por meses na zona rural, sem solução rápida e sem acompanhamento eficiente.
Se já existem equipamentos parados e problemas sem fiscalização adequada dentro do próprio município, como haverá controle eficiente quando essas máquinas estiverem sendo utilizadas fora da cidade?
Outro ponto que chama atenção é a postura do presidente da Câmara. Por regra, ele só vota em caso de empate.
Porém, nos bastidores políticos, cresce a percepção de que, caso precisasse votar, sua posição também seria favorável ao projeto, já que faz parte da base de apoio do prefeito no Legislativo.
Isso aumenta ainda mais a sensação de que parte da Câmara estaria mais preocupada em defender os interesses do Executivo do que os interesses da própria população.
O mais preocupante é que o projeto ainda não terminou totalmente sua tramitação.
A proposta precisa passar por três sessões de votação. Duas já aconteceram e o projeto foi aprovado nelas. Agora, resta apenas mais uma sessão para a aprovação definitiva.
Isso significa que a população ainda pode cobrar posicionamentos, pressionar os parlamentares e exigir transparência antes da votação final.
O papel do vereador não é apenas levantar a mão para aprovar projetos do Executivo. O vereador foi eleito para fiscalizar, questionar, defender os interesses da população e impedir medidas que possam prejudicar o município.
Vereador não foi eleito para servir prefeito. Foi eleito para servir o povo.
O mais preocupante é que muitos parlamentares conhecem de perto a realidade da zona rural. Sabem das dificuldades enfrentadas por produtores, trabalhadores e famílias que dependem das estradas para estudar, trabalhar, produzir e sobreviver.
Ainda assim, seguem apoiando um projeto que pode retirar ainda mais estrutura de um município que já sofre para atender suas próprias necessidades.
A democracia não termina nas eleições. O povo tem o direito e talvez o dever de cobrar posicionamentos, fiscalizar mandatos e lembrar que mandato público não pertence ao político.
Pertence à população.
E depois de duas votações favoráveis, uma dúvida permanece cada vez mais forte em Filadélfia:
quem realmente está defendendo os interesses do povo?
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